Domingo, Fevereiro 14

O amor-próprio é cego!

Cyrano, que ama Roxana, que ama Cristiano, abdicando de seu amor oferece a carta que fizera de próprio punho ao belo Cristiano que a oferecerá àquela formosa e delicada mulher. Cristiano se espanta por Cyrano já ter consigo uma carta tão adequada a sua situação, uma vez que não sabe verter em letras seus sentimentos. Não é poeta, nem tampouco muito inteligente, mas ama Roxana com aquele sentimento bipolar entre doce e agudo que toma os apaixonados. Ainda assim, sem as defesas de quem está resguardado da paixão, consegue desconfiar de Cyrano e lhe pergunta como pode ter uma carta que se encaixa tão bem a Roxana. E Cyrano lhe responde:
    Entre nós, [poetas] há sempre reservadas
    Epístolas de amor a falsas namoradas.
De modo tocante se justifica...
    A nossa amante é um sopro, um sonho rosicler
    Na bolha de sabão de um nome de mulher!
Cristiano pergunta se não precisa alterar nada do que está escrito para remete-la a Roxana, uma vez que foi feita "assim no ar", sem endereço certo. Cyrano garante-lhe que a carta lhe assenta perfeitamente, e acrescenta:
- O amor-próprio é cego, e, sobretudo, crente: 
  Roxana há de supô-la escrita expressamente.  
  O que será fatal a Roxane em seu encontro com Cristiano e a falsa-verdadeira carta será justamente seu amor-próprio, ou seja, o sentimento de que, sendo quem é, só pode ser o alvo daquela carta e quem a escreveu certamente seria o homem que declarava amá-la. O amor próprio é, além de cego, ingênuo. Não possui as condições necessárias para discernir os fatos e as situações, nem, tampouco, de onde vem o verdadeiro amor, pois é presa ao próprio espelho de seus olhos. O amor-próprio é antiamor, na medida que, de tão narcísico, mal pode relacionar-se com a idéia de depender do amor de outro. Quem, cujo amor-próprio impera - cego e crente - jamais poderá lançar-se no mundo incerto do amor, pois prefere a certeza de seu próprio umbigo a ter que investir lá fora, no mundo, nas dobras do corpo e da mente do outro. O amor-próprio é, às vezes, dito como orgulho-próprio. E, se é verdade que tem sua utilidade para defender o eu de ataques da realidade, quase sempre deixa indefeso o eu dos ataques de si próprio, do auto-engano. Não é assim tão comezinho encontrar alguém que se sente amado sem se sentir atacado em seu amor-próprio, exatamente porque ama; mas nossa profissão psicanálise participa de muitas construções analíticas que prescindem do orgulho próprio vivendo um amor do outro - dependendo e sentindo alegria na dependência. Mas uma maioria simples ficará a meio caminho disto, onde os sentimentos atrapalham ao invés de ajudar, se vendo na contingência de ter que lançar mão do orgulho-próprio. 

    Roxane acaba de ser enganada pela carta certa do homem errado.
    Foi Lacan que disse que uma carta sempre chega a seu destino; mas se algumas nem sequer saíram do lugar que se pensa terem saido, como podem atingir sua meta? E outras não atingem seu objetivo por causa do amor-próprio de quem deveria recebe-las. Talvez devêssemos dizer que toda carta chega a algum lugar; pode aportar bem distante do domicílio, ainda que na mesma residência...
 E isso ainda não é o mais sinistro; pode ser que chegue ao seu destino e estar em causa sua destinação, uma vez que o criador da carta está em jogo - quem a enviou é um outro...

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