Sábado, Junho 4

"Areia de asfalto na língua"!

      Esse é um dos versos de "Blue paixão", datado de 26/2/1983, por Miguel de Almeida. Em 1984 eu desenhava capas de livros para a Global Editora, mas deste livro fiz apenas a arte final. Tratava-se da coleção Navio Pirata, da qual também desenhei o logotipo, e, se não me engano, era o livro de estréia da coleção. Impresso em vermelho e azul, foi inovador para a época.
      Como de praxe, pelo menos minha praxe, li o livro para ver se podia colaborar com o aspecto gráfico. Quando cheguei neste verso me lembro de ter sido tomado por longo silêncio, que nunca pude completar, quero dizer, nunca pude saber que impressão era aquela que me tomara. O fato é que nunca esqueci estas palavras que misturam o chão da cidade ao corpo do poeta. Não se trata de um acaso qualquer que o poeta escolheu - ou algo nele escolheu - a língua, neste par corpo/asfalto. A carne que se mistura à brita da rua é exatamente aquela que no corpo mistura o som da vida à linguagem do homem. É a parte do corpo quente que articula sons e discurso, espalhando areia pelos vãos de dentes e gengivas, indo à garganta, rascando a conversa.
      Sempre me interessei por essa relação do cidadão com a urbe, do sujeito com o município, do homem com a cidade. Isso, por vias sinuosas, me enviou para um trabalho que faço para entender as relações do sujeito com a cidade em artigos, resenhas, capítulos de livros. Além disso, minha fixação pelo tema já me levou a escrever um poema, um pouco acanhado pela falta de sangue poético e, talvez, por não ter tido uma blue paixão, condição pra escrever algo tão pungente quanto "areia de asfalto na língua". Ainda assim, escrevi:

Os pés da solidão
                                              
Tenho estado a meio caminho de casa
por mais que ande.
Flutuo entre céu e terra olhando
as luzes da cidade.

Nas ruas fico entre a calçada e o asfalto iluminado.
Vou caminhando com pernas
que se conhecem bem demais,
com joelhos que conhecem seu ofício de dobrar-se;
vou vendo com olhos que brilham independentes de mim.
Meus ouvidos ouvem sons sem nexo maior
e minhas mãos aninham-se repousadas nos bolsos.
                                                                                                                                                  
Vou caminhando com pés protegidos da sanha do dia,
vou flutuando com os pés alados da fantasia,
vou apalpando os músculos lânguidos da brisa
que enfeita minha madrugada.
                                              
Vou tateando pelos rumos da vida e os ventos
vão virando as pás do moinho da existência

(São Paulo-1996) 

Do livro de Miguel de Almeida, como de tantos outros, passei décadas enciumado por ter lido versos com gosto de cidade.
"anjos de joelhos sujos
sob a coberta olhos 
de junho no delta louco
azul acho médio urbano 
no hotel central bege-bege
frege de língua, quase nau
frágil amor de talco" (22/VI/83 00:24 hot-house)

"atrás das frases sob luares, neons
pela manhã
caídas pensas nas costas
maíras, marias, muitas
ímã atado ao mau céu
de brilho anel rosado em tom de sol
canção, ruído: trilhos, esse respirado
lençol a nocaute" (2/III/83 - 10:30 olinda)

[...]some pelo cinza dos prédios
na fumaça que sobe ela finge [...] (26/XII/82 - 23:30 hot-house)

"estive nas ruas do centro da cidade
lá as mulheres morrem de amores
e não dizem nada
olhos apodrecem nas ferrugens
migalhas lanham roupas dos insetos
nos vôos das pestes soam epidemias [...] 

"amor comum
morte de paixão que não dá canção
amor de mármore nas esquinas
em flipers de luzes e tons esguelhados
meu bem dançando ao som dos automóveis" (7/IX/83 - 10:10 hot-house)

"vias transversais 
e uns versos
de animal amoroso
cravado em neon
[...] do umbigo ao rabo
nudez de andarilho
entre postes
vento de carro nas costas
os pés na água, com frio (19/IV83 21:50 hot-house)

nau nos asfalto down da rua
decadência em sonhos velhos
- e uma dor de coração (15/V/82 22:38 hot-house)

"[...]hálito da cidade [...]



"

Domingo, Maio 8

O meio do fim!

Empurro com delicadeza a porta do meu quarto. Ela tem a cabeça ovalada, de cabelos descoloridos, pendida com os olhos num livro. Pousa o indicador na linha para não perder a frase que lia. Me olha, vazia, e diz: Não acho que tenhamos qualquer coisa a falar. Minhas faces aquecem; depois gelam. Penso: Acabou tudo. Tenho que fazer as malas.

Sexta-feira, Abril 1

Do que é do Super-Homem! - II

O Super-Homem diz "eu quero" e não "eu devo" e, por isso, cria as bases e a liberdade para novos valores, embora não possa criá-los (os valores) só por dizer "eu quero". Para criar a liberdade e o poder de dizer não ao "tu deves", "um santo NÃO",  mesmo perante o dever, será necessário um leão que diga "eu quero".
Os novos valores, que florescem do leão do "eu quero", só chegam a vir à luz por meio da criança. O super-homem sabe que a criança é uma "santa afirmação". Ele não crê nos além-mundos e anda de cabeça erguida crendo no sentido da terra e do corpo. É aquele que sabe que "há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria". O Super-Homem não despreza o corpo e ama uma "virtude terrena" que não se parecem com a "sabedoria e o sentir comum"; e só crê num deus que saiba dançar.

Segunda-feira, Fevereiro 28

O caminho do Jeet Kune Do e do Wing Chun!

No final da década de 70 passei a ter as funções de professor de Kung Fu estilo Wing Chun, na antiga União Nacional de Kung-Fu. Já havia praticado judô, aos nove anos, em Apucarana, com um discípulo de Ono, chamado Kazuo, e depois aos quinze anos, Shao-Lin Kung-fu com Mestre Chen, e professor Marcus Tulius, lá pelos arredores da Estação da Luz. Mas, em 1976, assisti um filme de Bruce Lee, cujos comentários em revistas especializadas indicavam seu aprendizado de Wing Chun, com um grande mestre chamado Yip Man. Bastou para eu sair pela cidade de São Paulo procurando alguém que pudesse me iniciar nesta arte. Tive sorte! Depois de duas semanas de procura e surgiram notícias de que lá perto da Estação Santa Cruz do metrô, na Domingos de Morais, havia um jovem mestre que podia me introduzir no mundo dessa linhagem especial de boxe chinês. O jovem era Marco Natali, o criador da UNK!
Na primeira aula me surpreendi com a economia de movimentos, a pontualidade dos golpes e o uso da velocidade no boxe. Em princípio uma arte marcial que economiza energia me parecia fadada ao fracasso. Mas, mesmo com anos de prática, eu não podia fazer nada contra adversários que tinham menos de um ano de treino. O que estava acontecendo? Que milagre era aquele? Isso me manteve firme na prática daquilo que pensei ser uma heresia ao espírito das artes marciais.
Apesar da superioridade da técnica enxuta e objetiva do Wing Chun, o que fez diferença na minha vida de artista marcial por mais de 20 anos, foi eu ter entendido que a arte de luta não é uma imitação. Há um elemento sumamente importante que impede a simples repetição de movimentos dos grandes lutadores - o corpo. Um corpo individual, com uma limitação própria - este sim deve ser objeto de meditação, treino, estudo - pois impedirá que você seja mais um igual na massa de praticantes do combate corpo a corpo. É simples! Se você tem as pernas menos flexíveis que os outros, nada adianta flagelar a musculatura e com isso viver cuidando de contusões. Ao chegar perto do limite deve torná-lo seu amigo, cultivá-lo ao ponto de se tornar uma extensão de sua vida. Muito mais vale, no combate (por extensão, na vida) saber exatamente onde seu pé pode atingir o adversário, do que ficar tentando imitar outros colegas que naturalmente possuem mais altura ou flexibilidade. Podemos invejar à vontade os Bruce Lee da vida (geniais, é verdade!), mas o que manda mesmo na hora da refrega é saber de si.
Não se trata de deprimir a idéia de perfeição que permeia o Kung Fu; trata-se de fazer à perfeição aquilo que o corpo pode fazer. Felizmente o corpo pode muito mais do que acreditamos! Em geral ficamos bem aquém de suas forças. Não foi o caso de Lee; chegou, espantosamente, ao máximo que seu corpo podia, e creio que podemos dizer que foi além. Mas, chegar nesse limite pode levar o praticante das artes marciais a um fadiga sem recuperação. Mas, antes que alguém possa usar o fato como contraexemplo, digo que menos que isso, para Lee não interessava. Foi daqueles que queria saber quais os limites do próprio corpo. Nenhum artista marcial que quiser brilhar nesse mundo tão ambíguo, onde serenidade combina com explosão, deverá pedir menos que o limite.
Em certo momento de sua trajetória Lee acabou tendo que ficar por meses praticamente imóvel. Apesar do corpo ter lhe imposto seus limites, desta reclusão surgiu uma obra muito interessante chamada Tao of Jeet Kune Do, em 1975, quase três anos depois de sua morte, cuja leitura me ajudava a entender o espírito das artes marciais chinesas. Lá, na primeira página eu lia e relia, a propósito do zen: "The consciousness of self is the greatest hindrance to proper execution of all fhysical action" ou "It is not, 'i am doing this', but rather, an inner realization that 'this is happening through me', or 'it is doing this for me'''.
Embora Lee tenha praticado o Wing Chun, fascinado por sua grande economia e diretividade de golpes, quis ainda mais! No Jeet Kune Do, reduziu mais ainda os movimentos de ataque e defesa ressecando a fórmula dos ancestrais. Porém seu estilo jamais se inscreveu na grande caminhada dos estilos tradicionais. Ao analisar seus apontamentos, chegamos a uma genial simplicidade. Porém, como o que é simples não é pirotécnico, sua obra ficou esquecida, sendo guardada por um público muito restrito. Creio que sua genialidade para as artes do combate exatamente se apresentava nos movimentos econômicos e "feios", uma vez que não visavam encher os olhos da platéia, como o que se vê em estilos baseados em movimentos floreados da garça, do macaco, leão, tigre etc. Diga-se, de passagem, que o Wing Chung traz ainda as marcas da serpente e da garça em sua conformação. Mas a serviço de ir direto ao ponto, a saber, vencer o oponente em segundos, sem gastar muita energia. Porque dar dois golpes estilosos para vencer o oponente se se pode atingir o mesmo objetivo com um único e "feio" soco?
Não devemos comparar o Bruce Lee dos filmes com o do Jeet Kune Do. Fazer cinema deve encher os olhos com cenas grandiosas e com pouca realidade. Jamais Lee se comportaria em uma situação de risco do corpo, fazendo o que fez nos cinemas. Por seu porte pequeno e pouco pesado, na situação de combate real tinha que ser veloz e letal, o que não combina com o floreio cinematográfico. Ainda assim, Lee acabou colocando alguns golpes em seus filmes, que acabaram por tornar-se sua marca exatamente pela desnorteante simplicidade. Talvez, se não viesse a morrer tão precocemente, aos 32 anos, acabasse por fazer obras de cinema tendo como eixo das cenas um combate elegante, porém com a efetividade daquilo que é simples. Nunca saberemos!
Praticante do Wing Chun posso apenas dizer que este estilo sem bordados é a quintessência do Tao, e as semelhanças não os tornam iguais. Nas palavras secas e elegantes de Lee: "Life is a relationship to the whole", "truth is outside of all patterns", "the art of Jeet Kune Do is simply to simplify". Por isso, um dia desses gostaria de comparar um estilo com o outro, trazendo as palavras de um grande mestre do Wing Chun.
A foto foi captada de http://www.wired.com/entertainment/music/news/2001/11/48449#

Domingo, Fevereiro 20

Do que é do Super-Homem!

"O seu olhar [...] e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige ao mundo "como um bailarino!" Ele é como um menino e ama os homens. Superou sua humanidade que é "uma irrisão ou uma dolorosa vergonha". Muito mais que verme ou macaco ou uma mistura híbrida de planta e fantasma, o Super-Homem "é o sentido da terra". "Fiel à terra [e descrente] das esperanças supraterrestres" é aquele que sabe que "Deus já morreu".
É aquele que não blasfema da terra, cujo corpo acha que a alma "é pobreza, imundície e conformidade lastimosa." O Super-Homem é mar onde o rio turvo do homem acaba por se limpar; aquele cuja existência justifica a felicidade. Raio e delírio, passagem e acabamento, o Super-Homem é ponte e não a meta; aquele que quer conhecer, o que inventa e trabalha, o que ama sua virtude - sua tendência e seu destino, aquele que não quer ter virtudes demais...
É aquele que sabe que a alma morre mais depressa [que o] corpo; que procura "companheiros para seguir com ele, [...] não procura cadáveres, rebanhos , nem crentes; procura colaboradores que inscrevam valores novos ou tábuas novas". (Assim falava Zaratustra, Nietzsche-tradução de José Mendes de Souza)     

Quinta-feira, Janeiro 13

Condenados a ser livres!

"Não somos nem mecânicos, nem possessos; somos piores: livres." 
Assim J-P Sartre comenta a trama do livro 1919 (de John dos Passos). Nem somos autômatos cartesianos - artefatos criados à semelhança de relógios, fontes, moinhos e outras máquinas - cujas cabeças possuem uma glândula, um ponto de intersecção de muitos tubos que levam as forças controladoras dos seus movimentos, como uma mola que dá vida ao conjunto; produtos de uma indústria exata, cuja economia interior está desde sempre já dada. Tampouco somos possuídos por uma vontade, uma paixão (no máximo uma paixão inútil, como disse em outro momento), ou um conatus (como insistiu em O ser e o nada) - uma força-impulso metafísico disfarçado detrás de seus efeitos.
Somos livres, simplesmente: embora determinados historicamente, datados, enformados pela língua, efeitos ideológicos. Contudo, isso nada deve nos impedir de dizer: "eu". Sem sermos livres nada podemos responder frente a lei; o direito nada pode contra ou a favor de um sujeito que não é livre. Foi o caso do negro em tempos de escravidão - nada devia à lei ou à sociedade e à religião (do seu dono), porque escravo. Se o sujeito é determinado de ponta a ponta, a norma não se aplica, uma vez que ele está pronto e sua vida é perfeita, mecânica, automática, não exigindo nenhuma norma para suas condutas; estas são conhecidas e irretorquíveis; nem há um sujeito que reclame a diversidade, o singular - ou resista a empastelação ideológica.
Mas não é o caso. A lei, as regras, os regimentos devem dar conta de um sujeito que não é máquina ou possuído; agente livre, perigosamente a deriva, só fazendo o que deve fazer sob coação - primeiramente da tradição e depois pela norma.
Sujeitos de direito, livres para fazer o que quisermos, por isso determinados pela norma e pelo político; condenados à liberdade, somos mais que um autômato ou pulsão, entretanto menos que o político. O que será que isso pode nos dizer? Vejamos isso noutro tempo...

Segunda-feira, Dezembro 27

Bom ano novo para todos!

Todo final de ano é  a mesma coisa! Rever os acontecidos e planejar o que fazer para o próximo ano. A frase certa seria rever o que conseguimos cumprir e refazer os votos para o próximo ano. Porque acontecimentos são um tanto quanto imprevisíveis e prever acontecimentos é da ordem das mancias. Não que isso não seja prática muito comum, com leitores de cartas, mapas astrais, da mão e outras adivinhações, se esmerando em traduzir sinais secretos que nos possam guiar pelo ano que começa.
Bem, como não tenho a menor disposição para adivinhações e leituras de sinais esotéricos, fico a mercê do intangível, sem nenhum controle sobre essas cartas secretas, onde o futuro é escrito. Vou caminhando às escuras, tateando as paredes da existência, para ver se encontro uma porta ou janela por meio das quais possa eu ver a paisagem ou um caminho.
Tudo isso, para dizer que desejo a todos, que por aqui passam, um grande ano novo, mesmo que não possam dominar todos os acontecimento que virão. Talvez meus votos valham pelo que de humano possuem: o honesto desejo de causar conforto aos que dividem esse planeta e esse tempo. Então, que tenham vocês um ano repleto de bons pensamentos, de estratégias funcionais para vencer as vicissitudes diárias e que possam amar e serem amados por alguém que respeitam e sentem a falta. 
Por fim, que o ano de 2011 seja um ano que consolide seus desejos mais prementes.
Até mais!

Ps.: Creio que a cadelinha da foto, nossa mais nova convidada a viver na Serra do Cervo, que estava perdida por estas bandas, bem poderia esticar os votos e desejar que nós todos sejamos generosos com nossos pequenos grandes amigos, senão porque são cães, apenas por que são seres vivos. As pessoas que de fato, uma vez apenas, olharam no fundo dos olhos de um bichinho vivo, aqui representado por um cão, nunca mais serão os mesmos. Sofrerão profunda transformação na visão que tem da vida. São os votos da Pretinha...!


(não confundir com a foto de outra cadelinha, blogada há alguns meses; aquela era a Pepita, lembram?, encontrada num supermercado).

Quinta-feira, Novembro 11

Causa sui!

"'Ser livre. Ser a causa de si próprio, poder dizer: sou porque quero; ser o próprio começo.' Eram palavras vazias e pomposas, palavras irritantes de intelectual. [Mathieu Delarue] esperara tanto tempo. Seus últimos anos tinham sido uma vigília. Esperara através de mil e uma preocupações cotidianas. Naturalmente, durante esse tempo andara atrás de mulheres, viajara e ganhara a vida. Mas, através de tudo isso, sua única preocupação fora manter-se disponível. Para um ato. Um ato livre e refletido que empenharia o destino de sua vida e seria o início de uma nova existência. Nunca pudera amarrar-se definitivamente a um amor, a um prazer, nunca fora realmente infeliz; sempre lhe parecera estar alhures, ainda não nascido completamente." (A idade da razão, 1945, Sartre)
  
    Mathieu Delarue espera que de um só golpe sua vida faça sentido, como alguém que se torna milionário pela loteria, sem ter feito uma carreira nos negócios ou fama nas artes ou no futebol. Sua maneira de esperar era a de empenhar-se em realizar a longa e entediante corrente de pequenos acontecimentos de uma vida normal, sem gastar mais que o necessário para que tivessem uma luzinha de vida. Sua megassena, se posso dizer assim, era ser, de supetão, livre, e ainda por cima, de modo refletido, como se estivesse no horizonte a possibilidade de ser seu próprio fundamento. Com isso, surgiria uma nova existência, portanto, um novo mundo, um novo sujeito.
     Mas, Sartre sabia, a julgar por outras personagens em contraponto a Delarue, inclusive personagens de outras obras, que Mathieu encarnava a liquefação gigantesca, irrevogável e inexorável que acometeu o sujeito do começo do século vinte, mas já anunciada desde os primórdios da Idade Moderna, em Descartes e pelos poetas europeus. Foi um rápido derretimento de apenas quatro séculos, que desmilinguiu o osso do homem - o sentimento de que era um ser uno, causa de si mesmo e centro do mundo. A criação de Sartre nada tinha de espetacular, heróico ou surpreendente; era apenas um amontoado cujo nexo consistia em duas sensações bastante singulares: uma eterna espera do momento em que seria livre, uma disponibilidade para esse ato teatral, quase inumano; e a sensação de que sua vida estava em outra paragem, que não se dera à luz de modo cabal. Esse nascimento o colocaria livre, mas deveria ser por um ato de vontade. Um outro luxo burguês, como disse o filósofo, a propósito da contemplação, logo no início de "O existencialismo é um humanismo".
    Mas o desalojamento do sujeito do centro de si mesmo já se anunciava na crítica copernicana à concepção de Cosmos afirmada por Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (100-170). Estes tinham como certo a dualidade platônica constituída de dois domínios ou realidades. Uma realidade eterna e plena (o domínio celeste); e a outra constituída de eterno nascer e morrer, formada pelos elementos Terra, Fogo, Ar, Água, em constante interação, gerando matérias ou mundos uniformes e não uniformes, realidades que se relacionam, mas com essências radicalmente diferentes: uma é divina; a outra é humana. A divina é eterna, etérica, governando o Sol, a Lua e os planetas em geral. A humana é sublunar, governada, perecível, mortal.
Mas, no centro do homem estava a essência divina, segundo cria o homem platônico-aristotélico. Além de ser a verdadeira natureza do homem ela podia chamar o homem a se auto-criar, causar-se a si mesmo. Nas palavras de Platão, a fazer uma auto-parturição (um parto de si mesmo). 
    Pois é exatamente esse homem possuidor de uma essência divina, que combinava com o sistema cósmico de Aristóteles; um homem cujo centro ressoava com a dualidade celeste/sublunar. Conforme esse homem vai sendo descentrado, ressoando com o descentramento da Terra, há uma banalização de sua vida, uma superfluidade da existência. O homem não possui centro e não pode causar-se a si mesmo. Isso não quer dizer que aceitaríamos isso de modo passivo. 
     No passado o homem fora aquele para quem o mundo existia e também por meio de quem a realidade se erguia. Agora, a partir de Copérnico a Terra sai do centro do universo e o homem começa a ser sujeito - um ser cujo centro não é ele próprio. Disso a psicanálise e o existencialismo vão tratar por longas décadas. A primeira tenta salvar o sujeito dizendo que ele é seu inconsciente. A segunda é mais cruel: o nada é centro do sujeito.
    O poeta Sá de Miranda (1481-1558) já tão cedo advinhava ou estatuía a nova condição do homem moderno - um homem em conflito com seu próprio centro. Em desavença consigo próprio; mal vizinho de suas próprias fronteiras; sem poder viver em seus domínios; em uma guerra civil em suas próprias fronteiras. Irmão contra irmão, filhos contra pais, como bem exemplifica um dos versos onde é inimigo de si mesmo. O poema, uma joia da literatura mundial, é um esgar de angústia, própria daqueles que não mais podem deter o estado de sítio em que o homem moderno colocou suas próprias praças internas. O poema diz melhor:

COMIGO ME DESAVIM

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

                 (Sá de Miranda)

    Mathieu Delarue tinha saudades do tempo em que o homem pode dizer-se causa de si mesmo, centro do mundo, possuidor de essência verdadeira. Esse tempo passou. Hoje, dizer isso para si mesmo é uma extravagância burguesa, um luxo. E o luxo é sempre extravagante.

Sexta-feira, Outubro 1

Eu sou meu próprio gosto!

     "Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede." [...] Tudo isto era tão natural, tão normal, tão monótono, bastava para encher uma vida, era a vida. O resto, as Espanhas, os castelos na areia, era... o quê? Uma pobre religiãozinha laica para uso próprio. [...] Um álibi? "É assim que eles me veem: [aquele] que quer ser livre, como outros desejam uma coleção de selos. A liberdade é seu jardim secreto. Sua pequena conivência consigo mesmo. Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, razoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida, feita de inércia, e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas."  (Mathieu Delarue, personagem de A idade da razão - Sartre, 1945)
     Se existir é matar uma sede inexistente com sucos de gosto nauseante, é de se pensar que essa degustação de zinabre com hemoglobina seja possível apenas a conta-gotas, homeopaticamente. Do contrário, engasgamos e regurgitamos. A vida monótona, natural, normal, como devem ser as vidas, são eméticos feitos de horas, dias, acontecimentos sem relêvo: uma planície com raros promontórios, vales e montanhas. E quando acontece uma relevância é o drama ou a tragédia. Já com Roquentin (A náusea, 1939) personagem tomado pela viscosidade da vida e do mundo, que não chega a nenhum ápice, Sartre nos apresentava à nossa existência. Não aquela de um tobogã, mas aquela de uma viscosidade quase paralisante. A do tobogã é parente da tragédia, do mortal, do luto de lágrimas quentes. A viscosa é a da maioria que tem sorte ou azar de viver sem acidentes, sem trancos e barrancos. Da primeira todo mundo foge, da segunda é para aonde se vai quando da fuga.
     Delarue não nos poupa de sua semelhança conosco. Mesmo naqueles casos mais felizes, ou seja, naqueles em que o sujeito se livra de uma existência monótona, só o será se por meio de uma pobre liturgiazinha criada a partir de pedaços de vida. É laica, porque a tentativa de fazer uma vida com sede, acaba por desdizer a monotonia de uma vida religiosa; vida com gosto de boldo e carqueja para aliviar o estômago. Esse culto para consumo próprio, com o amargor no centro, no púlpito, evita a religião oficial com sua falta de sabor. Amargo é melhor que o insosso.
    Mas Delarue não nos dá chance para a auto-indulgência. Chama nossas vidas de "álibi", do latim, "em outro lugar". Estávamos em outro lugar enquanto a vida acontecia. A liberdade que exigimos, o habeas corpus que pedimos, na verdade é um álibi contra a acusação de que nos auto-impingimos uma condenação.  Que estamos noutro lugar; não naquele que dizemos estar. Ou que justificamos nossas vidas. Mas também pode querer dizer que nossas vidas são álibis contra aquilo do que estão nos acusando - de fazer uma vida que não nos pertence. 
    Mathieu Delarue é belo e denso; uma personagem profunda por encarnar o heterogêneo da existência - reflexões elevadas que encobrem uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia. Pungente personagem que habita os cômodos de nossa igrejinha privada chamada corpo, onde se dá o culto de nossa religiãozinha particular chamada vida.

Sábado, Setembro 4

Narrar é melhor que viver!

"Reconhecemos de imediato a triste abundância dessas vidas sem tragédia; são nossas essas mil aventuras esboçadas, perdidas, logo esquecidas, sempre recomeçadas, que deslizam sem deixar marcas, sem nunca comprometer, até o dia em que uma delas, igualzinha às outras, subitamente, como por descuido e à traição, enoja um homem para sempre, desmonta negligentemente um mecanismo" 
(Sartre, 1947, Situações 1 p. 37, falando do livro 1919 de John dos Passos).

Quando olhamos com uma lupa as vidas que desfilam defronte nossas faces, como elas nos parecem carecer desta raridade do teatro ou do cinema; o trágico é que o cinema, o romance, o teatro, e mesmo as novelas em sua longeva exposição ao nosso olhar, são olhares com lupas. Por quê não parecem com a vida real olhada pela lente de aproximação, se usam o mesmo truque de aumentar os detalhes para alcançar dramatização? Um resposta possível (e, é certo, não a única) é que se trata de uma narrativa. A vida tem a desvantagem de acontecer em primeira mão. De não ser um acontecimento contado, fabulado. 
      Foi Sartre, também, pela boca de um de seus personagens, a nos propor que narrar é melhor que viver. A narrativa daquilo que vivemos é certamente mais atraente que aqueles comezinhos instantes de existir, sem importância alguma, que fazem a maior parte do tecido da vida. Mas basta nos dispormos a contar o vivido e os fatos mais banais tomam cor, encorpam e brilham!
      Também não adianta muito usar uma lente panorâmica para ludibriar esse sentimento de  "deslizar sem deixar marcas". Uma vida inteira de ir e vir, do trabalho para casa, da casa para a desgastada praia de sábado e domingo, ou do feriadão, da casa para o trabalho, academia, cinema no sábado a tarde quando não é possível ir a praia etc., pode ser um frágil mecanismo a desmontar sem saber quando e nem por quê. O panorama de uma existência é salvo por uma biografia, uma nota numa revista, uma fotografia... uma narrativa.
      A abundância das existências não pode nada contra essa sensação de que só fazem sentido ao serem narradas em segunda mão. Daí, penso eu, depois de algumas análises de sujeitos apanhados pela drogadição, que o abuso do álcool, o uso de drogas químicas seja uma tentativa de narrar a vida sem vivê-la, o que, além de dramático, é trágico. São gritos de socorro contra a abundância de existência sem tônus.
      A psicanálise freudiana ou sartriana, embrea uma narrativa que acaba se tornando uma segunda vida, uma vida paralela, que acaba construindo uma biografia pela fala. Em muitos casos será a primeira vez que uma pessoa veio a ter uma vida para viver - aquela da narrativa psicanalítica. Um pouco de brilho narracional aos fatos de vida esboçados e ameaçados de desmilinguir talvez seja a melhor maneira de viver uma vida viva...
     Sartre propunha fazer da vida uma obra de arte. Será que podemos pensar em uma criativa narrativa de si mesmo como a arte de viver afastado desta tristeza que chamou atenção?